
…O diabo é a prova de que ao nos rebelarmos com alguém mais poderoso devemos ter sempre muito cuidado.

…O diabo é a prova de que ao nos rebelarmos com alguém mais poderoso devemos ter sempre muito cuidado.
Anselmo acorda impossibilitado de falar, com dores terríveis e amarrado as laterais de uma cama. Apavorado, percebe que não lembra de nada das últimas doze horas, mas como sempre acontece, pouco à pouco as peças do quebra cabeça vão começando a se encaixar.
— Meu pai é engenheiro – Dizia-me a Julia. – Já minha mãe é professora aposentada.
— Legal…- Respondi.
— Já o meu irmão é desembargador, e minha irmã médica.
— Sei…
— E o teu pai, o que ele faz? — Perguntou a Julia.
— Bom, o pai me olha lá de cima…
— Ah legal, é aviador?
— Não, falecido.
Estávamos numa festa na casa de meu cunhado, quando minha cunhada passou por mim e disse discretamente:
- Anselmo, preciso falar contigo.
- Claro, algum problema?
- Não é bem um problema, é que estou preocupada com a nossa sogra.
Tive medo devido ao seu semblante carregado.
- Ué porque? – Perguntei, já que não havia reparado nada demais na jararaca durante a festa.
Ela então olhou para os lados e me disse:
- É que agorinha ela chegou para mim me abraçou e disse, “Estava tudo muito bom, viu minha norinha querida…”
- Puta que pariu! – Me escapuliu – Tu sabe o que isso significa, né?
Ela me olhou assustada:
- Não, o quê?
- Alzheimer, talvez início, deixa as pessoas assim melancólicas e fora da realidade.
- Foi o que pensei…- Ela disse rindo.
- E tu sabe do pior né?
- Quê?
- Ela já escolheu com quem ficará!
Estava com um amigo no carro, um cara que trabalha no mesmo escritório e mora no mesmo condomínio que eu, então naquela tarde ele me pediu uma carona, ”Beleza, dá nada Joãozinho!”, falei para ele.
No carro, conversávamos sobre coisas de trabalho quando meu celular tocou, contrariando todo bom senso e as regras vigentes de trânsito, decidi atender. E ai de mim se não o fizesse, conheço minha mulher, ela continuaria ligando até eu atender, depois diria: “- Com quem tu estavas que não pode me atender, hein?“, e não adiantaria explicar que estava no trânsito, ela faria aquela cena do caramba!
Para evitar maiores problemas me digno a pagar as multas, é melhor do que dar explicações:
- Alô?
Do outro lado aquela voz meiga: – Oi benzinho, estou atrapalhando?
“Benzinho?” – Pensei – “Aí tem coisa…”
- Oi mozão, pode falar. – Respondi para ela.
Reparei um sorrizinho cético no rosto do meu amigo enquanto eu falava ao celular.
- Amor sabe o Juscelino? O vendendor aquele…
- Sei, sei…
- Pois é…
- Ta, o quê que tem o Juscelino, môzão?
- É que eu falei com ele agorinha…Eu sei que é caro, que tu pediu para eu ter paciência, mas eu tinha de tentar… E adivinha!
- O quê? O quê tu fizeste?
- Ai, benzinho não fica bravo.
- Tá, não estou bravo, o quê que foi? – Perguntei
- Benzinho, ele disse que faz por doze mil… À vista… Mas deu um desconto de dois mil e quinhentos…
Senti aquela fisgada no rim direito: - Mas doze mil môzão?
- Ai, eu sei, eu sei que é caro, mas nunca mais te peço nada…Vai.
Fiz uma pausa, afinal eram doze mil na bucha.
- Tá môzão, pode comprar.
A mulher foi a loucura, “Vou te esperar com um jantarzinho bem gostoso, só com aquela camisola preta que tu tanto gosta”, dizia em êxtase.
Ficou uns dez minutos descrevendo as coisas que faria comigo, fiquei com a boca seca, minhas pupilas dilataram, não via a hora de chegar em casa, depois desligou, mas não sem antes me mandar milhões de beijos e repetir centenas de adjetivos que terminavam com “inho”.
Meu amigo vendo meu sorriso satisfeito perguntou:
- Tua mulher?
- Não.
- Amante?
- Não.
- Mas quem era então?
- Não sei, foi engano.

O pensamento de futuro trará sempre muitas dúvidas do que será, o passado trará o arrependimento do que já foi, mas apenas o presente poderá ser desembrulhado, dependerá de você abrí-lo com calma ou como uma criança ansiosa.
Sorry, amanheci 1/2 sorumbático.
Ouvi há um bom tempo já, uma lenda que dizia mais ou menos assim.
O menino deve abrir mão dele.
Eu o vejo de cócoras, assim, olhando para mim.
Ouvindo com atenção meus soluços.
Sempre silencioso, mas depois de um tempo, o próprio tempo me ensinou a reconhecê-lo.
Ele lá, pressentindo a minha presença com o seu olfato eficiente.
Nós já sabemos quem somos, eu e ele, ele sabe que lhe pertenço, eu apenas aceito.
Ele saboreia estes momentos, eu apenas espero e o observo.
Cabelo longo que lambe seus ombros e delineia-lhe o rosto caboclo, deixando expostas suas sobrancelhas grandes e descabeladas.
Seus olhos no entanto, nada vêem, não os tem serventia, anjos não enxergam, para eles apenas vale o que nos vai na alma.
Anjos são cegos, burros e extremamente previsíveis.
Imóveis até o último segundo que precede o ataque.
Depois nada.
Nada.
Apenas o silêncio do corpo, minha alma sob seus olhos negros, um negror melancólico e angustiante.
Meu anjo cheira a morte com seu manto negro impregnado de séculos, um capuz gasto que lhe adorna a face enrijecida pela insensibilidade, e foram tantos os clamores.
Eu o amo por esse silêncio que nada pede, que não negocia, não troca, não oferece, não rechaça.
Hoje está aqui apenas para se certificar de onde me encontrar.
“Estou aqui Anjo.”, digo-lhe, ele que sorri, nem surpreso, nem entediado, talvez ofendido pela descoberta.
Vez por outra exala o odor de flores murchas, odores que me invadem as narinas, denunciando a sua vigilância que se oniscientiza à minha volta, como se eu já não o houvesse notado.
Ouço o farfalhar das suas asas.
Anjos são surdos.
Deus os fez assim para que não ouvissem nossas súplicas, assim o perdôo, pela indiferença, sei que carrega no silêncio de seus lábios o segredo da minha hora, segredo que agora é nosso.
Disse, que pessoas como eu ficam mais calmas assim, sabendo a sua hora, conhecendo o seu anjo.
No entanto em certos momentos me revolto com a sua presença constante nos reflexos das poças nas noites de chuva, parecendo querer insinuar a sua presença.
Meu anjo é assim, às vezes cansa-me com as suas mudas mensagens, e em momentos de profunda angústia, sabendo-se querido, escapa-me com espetacular desenvoltura, como se fosse eu quem o devesse convidar, para uma vez mais deitar em suas asas.
Foi logo depois, uns dias até, depois do distanciamento que só o tempo pode dar, que eu revi algumas cenas.
Enquanto te jogava contra o sofa, te puxava a blusa e te beijava ensandecidamente procurando aconchego no vezinho que tem antes de chegar por definitivo a tua bunda, que o mundo todo, não só a sala, ficou desinteressante.
Depois dos barulhos da tua respiração, foi quando senti o teu perfume, e vez após outra a mágica deste momento me entretém, mas não pude deixar de pensar que naquele exato momento, íntimo, entre duas pessoas, é que as tais diferenças emergem aos poros.
Louco que estava em dispensar todas as peças de roupa que o momento assinalava como inconvenientes e desnecessárias, foi que aquela pergunta surgiu, “O que se passava na tua cabeça?”
Naquele momento onde tudo cheirava a sexo, e eu insistia em te dar beijinhos na ponta do nariz, ali éramos dois personagens, entretidos cada um com sua fantasia, cada um com sua vontade.
E, se você ouvisse o pensamento que me saltava, “Caralho, eu quero te comer!”, certamente me mandaria embora, com minhas meias molhadas e as vontades quebradas, mas se pudesses ouvir o que o meu coração dizia, terias ainda mais dúvidas ou medo sobre mim, “Mulher maravilhosa…Quero você para mim, para sempre!”
Pudesse o tempo voltar para eu dizer o que sinto, diferente, naquele momento, mas tudo é assim tão urgente até passar, depois que passa ficam só as vontades, mas e a gente?
Foi ontem que reparei nesta conspiração, invisível, transparente, intangível.
Uma associação improvável como todas as conspirações bem sucedidas devem ser, percebi que o sucesso sempre esteve na improbabilidade, na dissociação das coisas, e eis que as coisas que aparentemente não tinham nada a ver uma com outra, lá pelas tantas são flagradas em pleno ato de união, ali, despudoradamente em plena troca de fluídos.
Nas nossas barbas.
Trago para tua surpresa que existe entre o setor imobiliário e esta instituição que é o casamento uma relação de interesses.
Ah tu duvidas?
Vou explicando que foi na desgastante busca de um novo lugar para morar, um outro onde pudesse me manter aquecido, alimentado, limpo e quem sabe, descansado, que percebi que o principal interessado nesta instituição, ora falida, ora bem sucedida.
São eles…Digo com convicção que são uns demônios, e não falo dos advogados não, esses tantas vezes perseguidos.
Nãããão senhor.
É o setor imobiliário, são eles que de alguma forma põe esta engrenagem maquiavélica para funcionar.
Pensando bem, até que podem estar mancomunados sim, digo, os corretores e os advogados, pois há sim um tanto de cada em cada um.
Nestas horas se percebe que todos ganham com o divórcio, menos você.
Isso é fato, não adianta tentar se enganar.
Não farei do fato uma regra, mas assim o é, haverá de ser na grande maioria das vezes e, meu caso evidentemente não poderia deixar de ser.
Existem imobiliárias especializadas em conseguir um novo lar para os novos solteiros ou até um lugar maior para os novos casados.
Já o que nos faz transitar entre um grupo e outro para mim ainda é um mistério.
Talvez burrice, diria num impulso de simplificar o incompreensível, mesmo que correndo o perigo de menosprezar as inteligências, alheia ou a própria, tanto faz.
Hoje aqui novamente dentro do mesmo apartamento que começara a vida, pior, ainda pagando por ele…E creio que ainda foi o mesmo maldito corretor que me vendeu, este sim, ganhará sempre, ou até que se separe.
…E Deus é pai.
Acaba por ser divertido /por senão triste/, ver nossos senhores políticos e servidores na midia, sobre tudo na figura de inquiridos e investigados.
Estranhamente para estes existe o direito básico da dúvida e da inocência de nascença, pobre dos outros, dos pobres de justiça.
Estes senhores se dão o direito de dizer que esquecem de transferir o direito próprio dos bens que usufruem, dizem confiar tanto nos outros que eu aqui no meu canto me sinto constrangido, pelo simples fato de duvidar.
Atualmente a figura deste servidor Agaciel Maia agraciado com a honrosa função de diretor-geral do Senado é o que mais me intriga.
Pediu afastamento, como se não fosse evidente a necessidade, e o fato que devia ser natural foi colocado por ele como “sacrifício”.
Poderá o afastamento caracterizar inocência?
Então, cá estou eu novamente constrangido com minhas desconfianças.
É que para nós outros seres desta mesma pátria, quando esquecemos das coisas que nos são oportunas, somos chamados prontamente as responsabilidades, e nos vamos para os guichês com as mãos aos bolsos.
E eu, que já não sei se acredito no que ouço e leio, provavelmente nem mais no que digo, vejo a todo momento o circunstancial se tornar fato, o carrasco se tornar réu e os investigados?
Estes serão mártires, até que se prove o contrário.
Eu realmente acho que um relacionamento já deu o que tinha que dar quando uma mulher já não acredita mais no cara.
Daí não tem, não dá mais para ser feliz.
Para vocês mulheres vai meu conselho, quase uma súplica: Acreditem nos seus homens, emocionem-se, demonstrem ao menos um bocadinho de confiança.
Nós precisamos, acreditem.
Precisamos que acreditem em nossas mentirinhas, nas nossas fantasias.
Nada mais broxante do que uma mulher que não acredita mais no cara, daí é o fim da várzea, é o “ó do borogodó!”.
Sabe o que significa o “ó” do borogodó?
Foi uma amiga quem me perguntou primeiro: _Marco, tu sabe porque se diz o “ó” do borogodó?
Certamente você foi espertinho como eu, que respondi: _Oras, é porque dos quatro “os” da palavra borogodó”, apenas o último é acentuado.
_É, é isso, mas tu sabe porque se diz isso? – Continuou ela.
_Hm, não…- Respondi.
_É porque significa “de última”, como o último “ó”, acentuado da palavra borogodó.
Depois de uns minutos refazendo a lógica confesso, gostei do tal ”Ó” do borogodó.
…
Quanto a acreditar na gente.
Em nós homens, devo demonstrar fazendo uma pequena analogia.
É que nós homens somos como políticos ou santos, temos de ter alguém que acredite na gente, senão não haverá carreatas, comemoração e consequentemente distribuição de verbas ou mesmo milagres.
Felizmente sempre haverá quem acredite neles, mas em nós, homens.
Bah!
E hoje em dia fazer uma mulher acreditar está cada vez mais difícil, se conseguir aproveite, mas seja realista, as mulheres são seres sagazes e com certeza ela estará apenas dando corda para você.
Elas vão dando corda, dando corda e quando você menos esperar.
ZAPT ou ZIPT, dependendo do local onde você deixou enrolar a tal da corda.
Nada mais chato e broxante que você mandar um SMS apaixonado para a namorada, lá pelas 15:30:
“_Psssiu? Casa comigo?”
Depois ficar na expectativa.
_O que será que ela vai responder?
(Espera)
Ah, deve ter corrido para comprar um vestido de noiva.
(Espera)
Pela demora deve ter desmaiado, e o pessoal do escritório deve estar todo lá ajudando.
(Dez minutos de espera…)
Bom, já deve ter voltado a si e agora está contando para as amigas.
Você já não aguenta mais de ansiedade, mas ainda se achará o cara mais “querido” do mundo.
_Mas ah, você é o cara mesmo!
Até que finalmente o telefone vibra e faz aquele “bip” avisando da mensagem, que diz assim:
“_Nesse momento de vida, teu e meu, a resposta é não.”
_Filha d…..Quê que essa vadia tá pensando? Tá saidinha é? Tá se achando?
Certamente o cara fica indignado.
Irado.
Pensa até mesmo em vingança, afinal, o fato de você já estar casado não é problema, em alguns países a poligamia é até permitida.
Comprovando que o problema é subjetivo, sendo apenas uma questão cultural.
O importante é sempre manter a calma, antes de você já sair ligando para floricultura cancelando as flores, faça diferente.
Ligue sim, mas apenas para mudar o endereço de entrega para sua casa.
Afinal, sua esposa vai adorar.
Houve um verão em 79, destes capaz de derreter moedas caídas pela calçada.
Não havia como ficar dentro de casa assistindo televisão.
Insuportável.
Devo começar explicando que naquele tempo, ar condicionado era coisa de ficção científica, até mesmo ventiladores eram raridade.
Não sei como sobrevivemos aquelas noites sufocantes, sem falar nos valões, verdadeiros esgotos a céu aberto que rasgavam os dois lados da rua, ali proliferavam nuvens de mosquitos que invadiam as casas desde a tardinha, mesmo assim nunca soube de nenhum surto de dengue, malária ou cólera, não naquela época. Provavelmente graças aos fumacentos boa-noite e pelas bombinhas de flitz, e fazíamos uso deles todas as noites, do contrário ninguém dormia.
Meio constrangido, devo contar que visitei algumas vezes o fundo daqueles valões fedidos, algumas vezes de cabeça.
E foram tantas.
Umas por descuido, outras por fatalidade de passar pelos pontilhões construídos em sua grande maioria de madeira velha, no momento e local errado.
Daí era fechar a boca e encarar o desagradável mergulho.
Meu pai foi um dos primeiros da rua a comprar canos e colocar na frente de casa, acho que o fato de eu ter caído no valão tantas vezes deve ter contribuído um pouco naquela decisão.
Para mim o pior é que cada queda era sucedido de um tratamento, e qualquer coisa naquela época era tratada através de injeções ou pelos indesejados e homicidas supositórios.
Preferia as injeções.
Daí surgia a figura carismática da dona Ercília, uma senhora conhecida de todos, principalmente das crianças, mas apesar de gostarmos dela, tínhamos verdadeiro pavor das suas visitas.
Então, todos os seus movimentos e itinerários eram controlados, e já cedo da manhã dona Ercília seguia em suas visitas cumprindo uma agenda mental.
Naquelas manhãs ela chegava, colocava água em sua caixinha de metal, punha sobre a boca do fogão e deixava ferver por dez minutos. Nem mais, nem menos.
E, dez minutos sempre me pareceu um tempo muito eficiente.
Depois vinha o preparo, quase um ritual que terminava no inevitável sacrifício.
A montagem da seringa.
O “ploc” da ampola sendo quebrada.
A seringa bebendo na ampola até não sobrar nenhuma gota.
O risco fino que o líquido fazia no ar depois de percorrer a agulha.
O gelado do álcool na nádega.
E finalmente, a ardência quente que a agulha deixava.
_ISSSssssss….
_Pronto, pronto não foi nada. Já vai passar. – Dizia a dona Ercília passando a algodão com álcool na minha bunda.
Depois de tomarem chimarrão ou um cafézinho, minha mãe dizia:
_Dá tchau para dona Ercília filho…E agradece.
_Tchau dona Ercília. Obrigado… – Dizia ainda com a mão na nádega.
_Tchau querido, até amanha!
E ainda seriam oito dolorosas manhãs.
(Suspiro)
…
Mas foi quando o Beto maloqueiro assoviou, que pulei para rua.
Era a senha, e logo todos da rua estavam lá em frente a casa do Negrinho, mesmo os mais distantes, aqueles que moravam lá no final da rua, estavam vindo, tudo graças ao assovio que só o Beto maloqueiro sabia dar.
Começamos escolhendo os times, era a minha vez de começar escolhendo já que ganhamos o último jogo.
Apontei pro Negrinho e ele veio para o meu lado direito e naquele dia o negrinho estava pálido como um cadáver.
O Negrinho tinha esse apelido simplesmente porque sua mãe sempre o chamava assim, foi questão de tempo até que todos o chamassem pelo apelido, e sinceramente ninguém o conhecia pelo nome de batismo, já que nem na escola na hora da chamada a professora o chama pelo nome, quando chegava a vez dele na chamada ela parava, olhava e dizia: _Negrinho…
Ele: _Presente!
Ele sorria, ela retribuía cúmplice.
Fazia por pura pena dele mesmo.
Foi algum tempo depois que minha mãe finalmente me contou a história por de trás do apelido do Negrinho, o porquê da dona Odila chamar o filho somente pelo apelido, mas antes tive de jurar que não contaria para nínguém.
Bom, sei lá, mas só posso dizer: _Desculpe mãe, mas vou ter de quebrar a promessa, sou obrigado.
Parece que tudo começou no dia em que o seu Ariovaldo, pai do Negrinho, foi ao cartório registrá-lo, seu Ariovaldo resolveu de última hora trocar o nome escolhido pela dona Odila para Odiorlei em homenagem a seu avô.
Quando chegou em casa contou da sua decisão e apresentou o registro do menino para dona Odila, ela olhou o papel e nada disse, mas desde aquele dia começou a chamar o menino apenas de Negrinho.
Nem o seu Ariovaldo teve coragem de chamar o Negrinho pelo nome de batismo, não na frente da dona Odila.
Depois, na gravidez seguinte da dona Odila, seu Ariovaldo arrependido da cagada, resolveu reparar o erro, e decidiu dar o nome escolhido pela dona Odila para a filha que acabara de nascer.
Então, a menina recebeu o nome de Márcia.
_Ufa! Agora imagina se o nome fosse Manuel? A coitadinha se chamaria: Manuelina Capitulina de Jesus Castro.
Rimos como condenados.
…
O Negrinho morava ao lado da minha casa e no terreno dele haviam três casas de aluguel.
A dele era a casa dos fundos, na casa da frente moravam a professora Odete com suas duas filhas (que eram putas, putas, putas…), e o filho caçula que chamavam de Xexéu.
Não me pergunte, mas foi naquele mesmo verão que surgiu o boato de que quem quisesse comer uma das meninas tinha de comer primeiro o Xexéu.
Devia ser apenas mais um boato.
Talvez fosse.
Na casa do meio morava um casal sem filhos, e nos finais de semana podíamos ouvir as urgências da dona Claudete, chamávamos de Claudete geme-geme.
Não houve como não reparar.
Foi na quarta que vi a Evinha pela primeira vez na academia, foi um dia memorável, destes que ficam guardados no imaginário.
Uma visão que beirava ao fetiche.
No vestiário eu já ouvira falar da famosa “pata de camelo”, e sempre que a comparavam com alguma menina, às frases terminavam com expressões de admiração, idolatria e risos cúmplices. Estava claro que deveria ser uma mulher fora do comum, ainda mais para ser idolatrada naquele templo de Apolo, aliás, este era o nome da academia. Templo de Appolo, e lá corria a boca pequena que ela estava em férias pelo nordeste e que voltaria na quarta-feira.
Comecei a entender porque que nas segundas, quartas e sextas a academia tinha seu maior movimento.
Devo começar dizendo que não sou nenhum viciado em academia, mas vez por outra o cara tem de dar o braço a torcer e admitir que aqueles anos de sedentarismo acabaram com os poucos músculos que se tinha, e a gravidade, este carrasco das mulheres, também nos afeta, visivelmente.
Mas foi num dia em que minha namorada me pegou mais forte pelos braços, num affair mais agressivo, pegou ali onde deveria haver o famoso muque, sabe? Pois é, não havia senão aquela massa molinha.
Reparei no seu desapontamento silencioso, não teria percebido nada, não fosse aquele suspiro que escapuliu.
Claro, fiz de conta que não percebi e continuei com a minha performance.
Homem nenhum vai reconhecer, mas ficou o pensamento lá me atormentando, incutindo a uma pequena, mas relevante neura.
Já no banheiro, olhei para os meus braços e, que saudade dos meus vinte e cinco anos. Levantei o braço direito, fazendo pose de forte e vi aquela massa de uns dez centímetros, era sim considerável.
Porém, negativa se representada em um gráfico cartesiano.
Estava claro que meus conhecimentos matemáticos não me ajudariam em nada, decidi pelo óbvio, me inscrevi na academia.
Estava lá há um mês, mas pelas dores que sentia pelo corpo pareciam dez anos.
Então, na quarta estava fazendo concentrado a minha micro série de iniciante, reparei naquela movimentação, aquele excesso de testosterona no ar, olhei ao redor e vi as séries dos outros colegas mais pesadas, mais lentas, deixando as formas aparecem mais, saca?
Em câmera lenta meus colegas forçavam seus músculos mostrando bíceps, tríceps e uma série de outros “ceps” que eu nunca vira no meu corpo, nem nas minhas aulas de biologia na escola.
Foi quando eu a vi de costas fazendo sua série, completamente alheia aos pavões bombados que a cercavam. Tive de achar aquilo engraçado, mas tive de concluir o óbvio, ela nunca olharia para mim, se olhasse seria certamente com desprezo.
Lembrando disso vejo como meu amor próprio estava abalado.
Então ela do nada vira e vem na minha direção.
Que formas perfeitas, cabelos loiros, olhos azuis, boca sensual, seios fartos e firmes, umbigo perfeito e…
_Noooooooooosssssssa!
Estava tudo explicado!
E benza Deus, era a mais linda, volumosa, torneada e fabulosa pata de camelo que eu nunca vira.
Chegava a dar vontade de tocar, de por a mão, sabe?
Ahh!
Porque tem disso, existem coisas que a gente até se contenta em ficar olhando, outras…
Daquele dia em diante, a Eva para mim, seria lembrada, não com uma folha de oliveira guardando as partes, mas com um módico shortinho de ginástica.
Justinho.
Assim, marcando os hemisférios.
Hoje passei por aquele velho corredor, devo dizer que lembrava dele um pouco maior, talvez um pouco mais largo e certamente mais comprido, mas já se foram tantos anos desde a última vez, que talvez este mesmo tempo tenha sabotado a minha memória ou o mundo não fosse realmente tão grande como aquela minha perspectiva de criança de seis anos me fazia crer.
Vai saber.
Quantas vezes passei por ali com meu triciclo branco? Certamente o bastante para degastar as rodinhas…Lembro que um dos pedais foi perdido e tinha de cuidar, porque o meu sapato insistia em escapar quando acelerava ao máximo.
Mas hoje o cal já fora lavado das paredes daquele corredor e o verde do limo vinha ganhando força desde baixo, invadindo e maculando o branco desgastado da tinta.
Naqueles canteiros agora desarrumados, apenas o mato triunfava e o canteiro em forma de meia lua da frente da casa me sorria um sorriso banguela devido aos tijolos que o tempo foi surrupiando.
Sorria para mim assim, meio constrangido.
Lembrava daqueles tijolos deitados de lado, pontiagudos que faziam o contorno e seguravam a terra adubada que o seu João colocava uma vez por mês naqueles canteiros.
Nestes dias eu ficava ali agachado ao lado dele apenas observando, às vezes alcançando alguma ferramenta.
Sentindo o cheiro da terra mexida.
_Tem de cuidar para as plantinhas crescerem. – Ele dizia.
Seu João era o dono da casa onde minha tia morava, ele morava na casa da frente, era fotógrafo e me parecia ter uns oito metros de altura, ainda mais magro como era.
Magro como um louva deus.
Quando se é criança algumas pessoas parecem gigantes, os muros intransponíveis e os problemas…Bom, esses continuam iguais.
Alguns insolúveis.
Talvez não existissem problemas, apenas as dúvidas, um certo medo das respostas que não vinham e o gosto amargo e incômodo das mentiras ditas tantas vezes.
_Tia, quando eu vou poder voltar para minha casa?
_Ã?
_Quando a mãe vai voltar do hospital?
_Ué meu filho, tu não estás gostando de ficar aqui conosco?
(Silêncio)
Cresci odiando as retóricas que confundem, aquelas que nada dizem e que apenas nos fazem sentir pior.
_Quando teu pai vier hoje a noite pergunta para ele, agora vai brincar, vai.
_Tá…
A noite quando meu pai vinha, já tarde, depois de visitar minha mãe no hospital, eu já estava dormindo ou deveria estar, porque às vezes eu fingia.
Fingia dormir para escutar as conversas, para que sem rodeios pudesse descobrir como minha mãe estava, nessas horas tinha de segurar o coração para que eu pudesse ouvir as palavras sussurradas na cozinha.
Deve ser por isso que adquiri o hábito de tratar na cozinha os assuntos delicados e, quanto mais grave o assunto, mais baixas as palavras serão utilizadas.
Depois, antes dele ir embora, meu pai passava no quarto e me olhava de longe, às vezes deixava algum presente.
Nesses momentos eu sentia o cansaço na sua respiração e me segurava para não pular em seus braços, abrançando-o e pedindo que me levasse de volta para casa.
Para que ao menos pudesse ficar junto com dele.
Argumentei com ele tantas vezes em pensamento que já havia decorado as suas respostas:
_O pai tem de trabalhar, tu não podes ficar sozinho.
_Mas eu fico pai, eu não tenho medo. – Eu respondia.
_Tu é muito pequeno, quem vai te cuidar?
Conhecia assim todos os argumentos, por isso mesmo eu preferia ficar ali imóvel e com meus abraços guardados.
Quando ele partia, eu ficava ali sozinho pensando nas conversas que não tivemos até o sono me carregar para outros mundos.
Em alguns destes eu podia ficar com a minha mãe…
Podia enfim ficar com ela, simplesmente me olhando andar de bicicleta.
A vida é assim, nos leva por caminhos que nem sempre imaginamos ter que andar e, às vezes abdicar de alguns que gostaríamos de ter trilhado.

Ontem eu a vi.
Não sei porque tive a brilhante idéia de ir vê-la.
Como sempre, foi uma idéia estúpida.
Sei que chovia.
Por isso fui vê-la.
Chovia uma chuva fina, sentida, de poucos pingos, e me caiam também um ou dois pingos de cada olho.
As pessoas que fugiam da chuva me esbarravam, foi quando o ar ficou mais denso.
Eu a vi.
Era dia 30 e por isso fui vê-la.
Mas ela não estava sozinha, ela nunca disse que estaria.
Sorria um riso leve, um riso que eu nunca vira.
Nunca para mim, não assim.
Assim tão leve, um riso de menina.
De menina pulando poças, levantando o rosto para receber os pingos gelados que faziam o sorriso ficar ainda mais lindo.
E ela sempre teve um sorriso lindo.
Fiquei ali, olhando a minha menina, mulher, menina.
Não mais minha, nem menina, nem mulher.
Eu estava sob meu grande guarda-chuva negro.
Fiquei ali até não suportar mais o sal na minha boca e as imagens perdendo o foco.
Caia uma chuva sem som, sem água.
Não faria diferença, eu estava surdo e seco.
Fiquei lá até a chuva passar.
Ela passou, sussurrei de longe um Psssiu.
Ela não ouviu, não me viu e foi embora me deixando com a chuva.
E ela nunca sorriu para mim assim.
Nunca para mim, não assim.
Tive sempre certa dificuldade de lidar com isso.
Com o frio incômodo no estômago que sucede os fatos.
Quase sempre inevitáveis.
Ou com o hábito involuntário de jogar com certa fúria os objetos indefesos na parede.
Depois ficar lá, catando os mil e um pedaços, assim, com os olhos.
Um por um.
Tentando consertar tudo ou simplesmente tentando encontrar em pedaços a razão, mas depois do ato consumado, apenas ela estará lá.
Zombeteira.
Como lembrança involuntária tatuada na parede.
A marca.
Uma maldita lembrança.
E mesmo quando meses depois eu passar por ali, sei que ouvirei dela o “Psiu” que me fará lembrar de tudo.
Com todos os pedaços ainda pelo chão para nunca mais me deixar esquecer.
Todos ali, menos a razão.
Perdida e arremessada na parede.
Em pedaços…
Para isso jamais haverá cola, juras ou conserto.
A confiança perdida chora um choro convulso, como criança sem alguém para dar-lhe a mão.
E agora jaz ali, em pedaços.
Como sempre ocorre ao suceder dos fatos.