Pseudolalia

Eu vim rebuscar o óbvio das cenas; o cru que não comove mais; atiçar o fogo que surge nos porões; o eterno desejar; a palavra certa nas orações; o vício que não se consegue largar... apenas, rebuscar.

Últimas

Amigos imaginários

Dia desses alguns amigos imaginários bateram lá em casa.
Foi uma festa destas que a gente nunca viu, mas quando foram embora a casa ficou vazia.
Ficaram os pedaços de tudo: do pão dormido, sonolento e duro, as marcas de batom na beirada dos copos e a náusea causada pelo cheiro de fumaça e da cerveja derramada pelos cantos.
Havia o chão sujo e alguns corpos atirados atrás do sofa - meio vivos, meio mortos - que foram pouco à pouco desaparecendo.
Fiquei ali sentado em meu canto, observando os escombros e ouvindo os barulhos de ontem.
Pensando que, no fundo a saudade é tudo o que temos.
A loucura?
Uma válvula de escape…
Talvez, a vulva sagrada de todos nós sonhadores.

Meu anjo

Eu o vejo de cócoras olhando para mim.
Ele ouve com atenção os meus soluços.
Silencioso, mas depois de um tempo o próprio tempo me ensinou a reconhecê-lo.
Ele lá, pressentindo a minha presença com o seu olfato eficiente.
Eu apenas aceito.
Nós já sabemos quem somos e ele sabe que lhe pertenço, então saboreia estes momentos, enquanto eu o absorvo.
Seu cabelo longo lambe seus ombros delineando seu rosto caboclo, deixando expostas suas sobrancelhas grandes e descabeladas.
Seus olhos no entanto, nada vêem, não os tem serventia - Anjos são cegos - Para eles apenas vale o que nos vai na alma.
Anjos são cegos, burros e previsíveis.
Imóveis até o último segundo que precede o ataque.
Depois nada, apenas o silêncio.
Minha alma sob seus olhos negros.
Um negror melancólico e angustiante.
Meu anjo cheira a morte com seu manto negro impregnado de séculos e um capuz gasto adorna sua face enrijecida.
(E foram tantos os clamores…)
Eu o amo por esse silêncio que nada pede – não negocia – não troca – não oferece… não rechaça.
Meu anjo vez por outra exala o odor de flores murchas.
Odores que me invadem as narinas, denunciando sua vigilância que se oniscientiza à minha volta - como se eu já não o houvesse notado.
Ouço então o farfalhar das suas asas.
No entanto, em certos momentos me revolto com a sua presença constante, nos reflexos das poças nas noites de chuva, nas vitrines das lojas, como que insinuando sua presença.
Meu anjo é assim, às vezes cansa-me com as suas mudas mensagens e em momentos de profunda angústia, sabendo-se querido, escapa-me com espetacular desenvoltura, como se fosse eu quem o devesse convidar e, uma vez mais deitar em suas asas.

Vontades

Foi logo depois, uns dias até – depois do distanciamento que só o tempo pode dar, que eu revi algumas cenas.
Enquanto te jogava contra o sofá, puxava a tua blusa e te beijava ensandecidamente procurando aconchego no vezinho que tem antes de chegar por definitivo a tua bunda que… naquele momento,  o mundo todo, não só a sala, ficou desinteressante.
Ouvindo o barulho da tua respiração, lembrando do teu perfume – que vez após outra a mágica daquele  momento me entretém, masas não pude deixar de pensar que mesmo naquele exato momento, íntimo entre duas pessoas, é que as tais diferenças emergem aos poros.
Louco que estava em dispensar todas as peças de roupa que o momento assinalava como inconvenientes e desnecessárias, foi que aquela pergunta surgiu.
Exatamente naquele momento, onde tudo cheirava a sexo e eu insistia em te dar beijinhos na ponta do nariz, ali, éramos dois personagens, cada um entretido um com sua fantasia, cada um com a sua vontade e, se você ouvisse o pensamento que me saltava? “Eu quero te comer!”, certamente me mandaria embora com minhas vontades quebradas, mas e se pudesses ouvir o que o meu coração dizia?
Terias ainda mais dúvidas ou medo sobre mim?
“Mulher maravilhosa, quero você pra mim…”
Pudesse o tempo voltar para eu dizer o que sinto, diferente, mas tudo é assim tão urgente até passar, depois que passa ficam as vontades, mas e a gente?

Retomar

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Tive sempre certa dificuldade de lidar com estas coisas.
Com o frio incômodo no estômago ao suceder dos fatos, quase sempre inevitáveis, ou com o hábito involuntário de jogar com certa fúria os objetos a parede.
Depois ficar lá, catando os mil e um pedaços.
Um por um.
Tentando consertar tudo ou simplesmente tentando encontrar em pedaços a razão, mas depois do ato consumado, apenas ela estará lá.
Zombeteira.
Como uma lembrança involuntária tatuada na parede.
A marca.
E mesmo quando meses depois eu passar por ali, sei que ouvirei dela o “Psiu” que me lembrará e, com todos os pedaços ainda pelo chão, para nunca mais me deixar esquecer.
Todos ali, menos a razão, aquela perdida e arremessada a parede.
Para isso jamais haverá cola, juras ou conserto.
A confiança perdida chora um choro convulso, como criança sem alguém para dar-lhe a mão.
Agora jaz ali, em pedaços.
Como sempre ocorre ao suceder dos fatos.

É a falta…

É a falta, uma necessidade diária de saciar as vontades,
buscar com urgência a felicidade na lisergia dos braços.
Uma pressa vital que consome, como que para viver se precisasse da dose diária.
Da pequena e última dose diária.
Quanto mais saciado, mais sedento.
Quanto mais se quer ficar, mais rápido às horas escorrem.
Surge a angústia dos prazos.
O telefone que toca.
A consciência que espeta e freia as vontades.
Maldade da mente que impede o coração, trava, como se sentir fosse perigoso e o partir não fosse apenas conseqüência do estar.
Como se tudo fosse inevitável e definitivo.
Depois volto ao dia-a-dia travestido de homem normal.
Prisioneiro da imagem, do bem necessário, da verdadeira mentira.
Eterno prisioneiro da saciedade que me exige consumir com os escrúpulos.
É a falta que me faz buscar.
Necessidade…urgência…o prazer de estar.
É a falta que fazes.

Gritos

Vejo teus olhos cansados judiados pelo tempo, ressequidos pelas lágrimas derramadas, tuas mãos calejadas pelo trabalho diário e o coração machucado pelas chicotadas que a vida sempre deu.

Pelo sofrimento que minhas palavras causaram, ficas agora aí parada olhando para um nada, com o olhar vago, sem tempo, sem mágoas e essas seriam tantas.

Tua pele sulcada, mostra a profundidade das navalhadas que o tempo deu, vejo sangrar a pele fina que recobre tuas mãos agora trêmulas, mãos que outrora apoiaram firmemente meus primeiros passos, me balançaram nos balanços das praças e me ergueram nos primeiros trancos que a vida deu.

Tuas pernas agora falham nos teus passos cada dia mais lentos, das tuas dores seriam escritos livros, das lágrimas rios que alimentariam um mar, de nosso contrato de vida restaram poucas páginas ainda não lidas, das surpresas boas que a vida trouxe hoje restam poucas, como comédia infame não nos fazem mais rir.

Choramos juntos este pequeno resto de vida, que de ilusório nada tem, se o contrário fosse, de que valeriam nossas dores e cicatrizes, aprendi contigo a valorizar o que se tem, nem que seja apenas o amor próprio, não fosse esse também o que teríamos?

Quando puxado pelas dívidas cobradas, pagaste em meu lugar saindo em meu auxílio, ajudando assim a muitos, libertou-nos desta imensa roda que nos privava a vida e quantas voltas demos na ilusão da vingança.

Mostrou-me a reconhecer a peçonha e a ouvir o sibilar das conversas, me deste do teu tempo, ouvi de teus ouvidos, chorei por teus olhos e me deste o teu dom…

…fizeste do pranto um rito
um grito sem som
que mesmo sem ser ouvido
foi dos gritos o mais doído.

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